14 de outubro de 2004

AINDA A RELIGIÃO...

Não há nada como as fontes. Quando se lê directamente (sem intermediários, portanto) um texto, quase sempre chegamos à conclusão de que este foi sujeito a toda a espécie de adulterações. É uma coisa humana, a distorção do boca-a-boca, a intrusão daquilo que nós somos e do que queremos dizer durante o processo de transmissão de uma mensagem. Aprende-se no 5º ano, nas Funções da Linguagem. Mas a gente esquece, mal se começa a crescer.
Com as religiões aconteceu o mesmo.
Por gosto e atracção pela poesia da linguagem, mergulho de vez em quando nos livros sagrados das várias religiões. Leio na origem os versículos que levam a que homens se imolem pelo fogo e outros se assassinem nas ruas do mundo. E chego sempre a conclusões interessantes.
Primeiro, os livros ou as partes constitutivas do registo que sustentam cada uma das principais religiões foram sendo escritos ao longo do tempo. Num caso específico, ditado por alguém que afirmou tê-lo ouvio de Deus a outros que guardaram na memória e que por sua vez transmitiram a outros que o foram registado onde puderam: ossos de camelo, pedras etc... Noutro, o processo há-de ter sido semelhante: gente inspirada pelo céu e sem testemunhas chega com um relato que é registado de forma dispersa ao longo do tempo. Mais tarde, esses e outros manuscritos são misteriosamente encontrados, seleccionados (isto é, guardaram-se os que interessavam e afastaram-se os que contrariavam as crenças da época) e divulgados.
Ler as fontes e olhar para a forma como o manuseamento dessa informação tem sido manipulado desde há muito faz com que eu tenha a certeza de que não vivemos nos tempos de ciência e liberdade que se propagandeia. Quando muito, numa Idade Média limpinha.

ps:
As traduções que nos chegam são feitas por pessoas que acreditam. Em muitos casos por poetas conhecidos. E são escritas (no caso português) com uma beleza que contraria em muito a rudeza dos castigos anunciados. E que por mais não fosse, só isso valeria a viagem ao papel fininho.

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